“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer porque eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura... Nas cidades a vida é mais pequena que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, ..” (Alberto Caeiro)
Agora sim, aparecem gajas boas. (?) Não era nada disto!! Recomecemos…
Agora sim, vamos finalmente sair da “cepa torta”. Com o finalmente Santo Condestável entronizado, temos um astro guia a iluminar o nosso até agora negro porvir.
Lembro-me perfeitamente do dia. Manhã fria e chuvosa, saímos como todos os dias ás 6,30 da manhã. Era assim nesses tempos, os miúdos saíam de casa pela madrugada e voltavam noite cerrada. O convívio com os pais era muito restrito. Depois da volta habitual; Chança, Cunheira, Monte da Pedra, Aldeia da Mata, Flôr da Rosa, Crato e Alter, onde chegávamos depois das 8:00 horas, parávamos frente ao portão do colégio particular. Rapazes para um lado, raparigas para outro. Mas nesse dia havia algo diferente no ar. No átrio das salas de aula, as funcionárias; Menina Teresa e Menina Antónia, ouviam um pequeno rádio onde não cantava o Mourão, o Artur Garcia, a Tonicha. Tocava coisas diferentes. Havia uma música ritmada que falava de fraternidade, de igualdade, de povo. Acho que nos mandaram para casa a meio da manhã. E eu, miúdo de 14 anos, nem fazia ideia o quanto o meu mundo tinha mudado naquela madrugada.
sexta-feira, abril 24
Amanhã, nasceu a liberdade! Talvez um dia, eu a copie.
Faz hoje vinte anos, Portugal viveu um dos dias mais negros da democracia. A insanidade dos nossos políticos, chegou ao ponto de mandar a Polícia de Intervenção carregar com canhões de água sobre colegas que lutavam pelos direitos sindicais, no Terreiro do Paço. Ficou conhecida como a Manifestação dos Secos & Molhados.
O meu bisavô Zé Ratinho era um homem pequeno de estatura, uma característica de que ele parecia não gostar muito. Então compensava esse aborrecido “handicap”, com um carácter destemido e uma imaginação muito fértil. Sempre que se aventurava pelos campos de noite, trazia histórias arrepiantes para contar de lutas com lobos ferozes e descomunais. Ao ponto se dizer que “fazia os lobos grandes”.
Um dia em que precisou de ir a Chança, a pé como era costume na época, quando voltava para Seda, armou-se uma enorme trovoada. Tinha duas hipóteses; ou seguia o caminho normal e levava com a tremenda borrasca, ou cortava caminho pela Barroca das Serpes, apesar de todos os perigos. A Barroca das Serpes, ainda hoje, é um lugar soturno. Naquela época, fins do Sec. XIX, quem por lá se aventurasse de noite, tornava-se certamente repasto das alcateias.
Ele decidiu-se pelo caminho mais curto, cuidando passar os perigos antes da noite acontecer. Ou por ter calculado mal o tempo, ou por influencia da enorme borrasca, o breu da noite deu-se quando estava mesmo no coração do perigo.
O concerto de sons na noite era aterrador. Sentiu-se seguido. A sensação de perigo, já tão sua conhecida, invadiu-lhe todo o corpo. Apressou o passo. Num momento em que os raios do luar romperam a abóboda de negras nuvens, viu-o a cortar-lhe a passagem. Era o maior lobo de que tinha memória. A fera mediu-o. Avançou. Primeiro lentamente, depois a mata-cavalos. Fez o salto, a enorme bocarra escancarada. O meu pobre bisavô, só teve tempo de esticar o braço. Enfiou a mão pela garganta do bruto, chegou ao outro lado, agarrou e puxou-lhe o rabo. E o lobo ficou virado das “avessas”.