sábado, setembro 17

OLHA QUE FINOS…

Os pais dos alunos da Escola EB 1 de Nisa substituíram ontem os filhos no arranque do ano lectivo, como forma de protesto pela colocação das crianças do 1º ano em turmas do 2º, 3º e 4º anos.
Em declarações à Lusa, Amílcar Zacarias, porta-voz dos pais dos alunos, explicou que a situação poderá representar um entrave ao sucesso escolar das crianças.
"Estamos perante uma situação de desigualdade e discriminação, além do notório choque de conhecimentos por adquirir e já adquiridos pelos alunos, somando a diferença de idades entre os alunos do 1º ano e dos anos seguintes", explicou.

Eu fiz a minha Instrução Primária, numa grande sala com perto de 40 alunos dos 4 anos e uma professora.
Nunca encontrei nenhum “entrave” ao meu “sucesso escolar”, nem sofri de “choque de conhecimentos”. E olhem que no exame da 4ª Classe, fiquei “Aprovado com Distinção”.
Quem dera a muitos pais, por esse mundo fora, ter para os filhos as condições da escola de Nisa
.

quinta-feira, setembro 15

MANHÃ SANGRENTA

A manhã de ontem no Iraque foi sangrenta. Uma dezena de ataques, mais de 150 mortos e 500 feridos, que dadas as condições dos cuidados de saúde, irão grande parte deles, engrossar o número de mortos.
O mais grave, em Bagdade, matou 80 pessoas e fez 160 feridos, muitos em estado grave. Eram sobretudo civis à procura de trabalho, na luta diária pela sobrevivência
Há alguns meses que o Iraque não conhecia uma manhã tão violenta.

Mas que importância é que isto pode ter? São vidas de segunda. Era grave era se fosse em Londres.
O importante é controlar o petróleo e os fabricantes de armamento fazerem negócios.

quarta-feira, setembro 14

MENSAGEM - Fernando Pessoa

OS AVISOS III

Screvo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

terça-feira, setembro 13

A MANIF. DA “TROPA”

Coimbra, 25 de Abril de 1974
“Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo ?Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...

”(Miguel Torga - Diário XII)

Obviamente que todos os cidadãos têm o direito de se manifestar livremente e lutar pelo que julgam ser os seus direitos.
Apesar de lutarem por “Direitos Adquiridos” injustos por não terem nada a ver com a realidade do país e terem sido alguns deles obtidos por “pressão” a políticos fracos, mesmo assim têm direito a manifestar-se.
Desde que o façam na qualidade de cidadãos e não fardados como da última vez. A farda vincula a Instituição Militar, que de abster-se de lutas laborais.
Não podemos correr o risco, que num futuro próximo, decidam manifestar-se não só Fardados, mas também Armados.

segunda-feira, setembro 12

COLABORAÇÕES

A AVALIAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Nos últimos tempos muito se tem falado da necessidade da reforma da Administração Pública. Mas quando se põe o problema, agora associado ao controlo do défice orçamental das contas públicas, pergunta-se de que Sectores da Administração estamos efectivamente a tratar. Dá a impressão, à primeira vista, ou para os cidadãos menos atentos de que tudo na Administração está mal. Uma quantidade enorme de malandros tem andado a gastar dinheiro ao Estado a fazer coisas inúteis e os sucessivos Governos foram assistindo ao descalabro sem nada fazerem até esta data.
A generalização é perigosa como é fácil compreender. Como todas as grandes organizações a Administração Pública foi cumprindo as políticas dos vários Executivos
e as estratégias delineadas pelos seus altos dirigentes.
É evidente que há problemas a resolver, que o número excessivo de Governos, nos últimos 30 anos, e a ausência de um pacto de regime ou entendimento sério entre as forças políticas que integram o chamado arco do poder, não tem facilitado a abordagem séria do assunto.
Voltando ás áreas da Administração que mais preocupam os cidadãos salientamos as seguintes:
-Educação – Maus resultados no ensino. Gastos no sector ao nível dos países mais desenvolvidos da União Europeia. Problemas com o excesso e colocação de professores.
-Justiça – Processos atrasados. Justiça tão lenta que se transforma em injustiça.
-Saúde – Listas de espera para cirurgias nos hospitais com atendimentos muito para além do tempo razoável. Insuficiência de pessoal médico e de enfermagem.
-Força Armadas – Sua adaptação ao território que temos, actualmente, e redefinição das suas funções em tempo de paz.
Como se vê o problema não é fácil. O simples enunciado de meia dúzia de questões nas áreas anteriormente descritas, arrasta um conjunto de situações cuja complexidade e respectivas soluções são conhecidas. O facto de terem sido criados ao longo do tempo Departamentos Governamentais para tratarem especificamente o problema não tem conduzido a resultados satisfatórios como se tem verificado.
Na década de 70, antes do 25 de Abril, foi criado um Secretariado para a Reforma Administrativa dependente da Presidência do Conselho de Ministros e desde então não há Governo que se preze que não tenha no seu programa e na sua Orgânica o tema da Administração Pública e sua reforma.
O assunto não é, portanto, novo. Tem raízes. Penso valer a pena analisar as questões de pessoal e a sua evolução uma vez que se trata da componente mais complicada da estrutura de custos da Administração.
Até aos anos 30 o esquema remuneratório da Administração Pública encontrava-se disperso por vários diplomas com os direitos e regalias das várias categorias de funcionários diferenciados de acordo com a importância do Ministério ou Serviço sem qualquer justificação real. Assim, funcionários com as mesmas qualificações académicas e/ou profissionais tinham remunerações e regalias diferentes consoante o Departamento onde trabalhavam.
Em 1931 o regime de então publica o decreto c.f.l. nº 26115, que clarifica a situação de todos os funcionários quanto a vínculos, carreiras e remunerações e arruma as diferentes categorias em letras de “A” a “Z” modalidade que vigora até ao início da década de 90, mais concretamente até à entrada em vigor do novo sistema retributivo da administração pública.
Até final da década de 60 a admissão na Função Pública e a progressão nas carreiras era feita por concurso, principalmente na carreira administrativa.
No início da década de 70 com a Reforma de Veiga Simão no Ministério da Educação e a passagem de um ensino de elites para um ensino massificado foi efectuada uma alteração profunda nas estruturas da educação a todos os níveis. A criação de novas Direcções Gerais e Serviços, com os respectivos quadros de pessoal, abre perspectivas para a entrada de técnicos, posteriormente designados técnicos superiores, licenciados, que para além do ensino tinham agora a possibilidade de preencher os novos lugares criados no Ministério da Educação.
Esta entrada maciça de licenciados sem qualquer formação específica na administração pública, ressalvando alguns casos das áreas de direito e economia, os mais difíceis de recrutar, dada a concorrência com o sector privado, pouco veio alterar o rendimento da Administração Pública. A situação a partir daí com a diferenciação de vencimentos das categorias de pessoal técnico e administrativo, muitas vezes desempenhando funções idênticas, criou um clima de mal-estar entre o pessoal das carreiras com níveis de remuneração mais baixos.
A tendência para a subida da massa salarial na Administração Pública começa, assim, a verificar-se ainda antes do 25 de Abril, agravando-se com o Novo Sistema Retributivo que vem criar uma quantidade tal de Corpos Especiais que a administração em geral, ou seja todos os que não cabiam nos ditos corpos especiais passaram a ser minoritários. Deste modo a excepção, que deveriam ser os corpos especiais passaram a regra com inegáveis repercussões no volume total das despesas com o pessoal.
Não admira, assim, que o aumento do número de funcionários aliado a uma distorção das remunerações na sequência da entrada em vigor do NSR e leis subsequentes tenham contribuído fortemente para colocar a despesa com a Administração Pública nos actuais 15% do PIB.
Neste momento a aplicação do princípio do orçamento de base zero que obrigaria a uma análise cuidada da necessidade de qualquer Organismo da Administração Pública e da correcta avaliação de funções e determinação do número de funcionários necessários, baixaria, seguramente, a despesa global da Administração para números aceitáveis de percentagem do PIB.
Um dos argumentos utilizados para a fraca produtividade do Sector Público é o baixo nível de qualificação dos seus elementos. È um facto e aqui as estatísticas não mentem.
Deverá, no entanto, acrescentar-se que a não adequação das qualificações académicas ou profissionais às funções desempenhadas é outro factor a considerar.
Uma vez que a Administração se encontra associada ao controlo do défice orçamental não restam dúvidas de que é necessário:
- Reduzir custos e eliminar desperdícios;
- Reestruturá-la, desburocratizando-a e aproximando-a dos cidadãos;
- Modernizá-la, introduzindo, gradualmente, as novas tecnologias de informação.
Esperamos que a nova Comissão de Avaliação da Administração Pública tenha condições para executar um trabalho credível, indispensável não só ao controlo do défice mas também para o arranque de uma administração moderna e eficiente. Penso que não poderá ser mais uma Comissão a juntar a tantas outras do género, porque o País atingiu nesta área uma situação que se pode considerar de não retorno, pelo que será impensável manter a actual situação por mais tempo.

(João Aurélio Raposo)

domingo, setembro 11

11 de Setembro de 2001

O PEQUENO PRINCIPE (A. de Saint-Exupéry)

Capítulo VI
Assim eu comecei a compreender, pouco a pouco, meu pequeno principezinho, e a sua vidinha melancólica. Muito tempo não tiveste outra distracção que a doçura do pôr-do -sol. Aprendi esse novo detalhe quando me disseste, na manhã do quarto dia:
- Gosto muito de pôr-do-sol. Vamos ver um...
- Mas é preciso esperar...
- Esperar o quê?
- Que o sol se ponha.
Tu fizeste um ar de surpresa, e, logo depois, riste de ti mesmo. Disseste-me:- Eu imagino sempre estar em casa!
De fato. Quando é meio-dia nos Estados Unidos, o sol, todo mundo sabe, está se deitando na França. Bastaria ir à França num minuto para assistir ao pôr-do-sol. Infelizmente, a França é longe demais. Mas no teu pequeno planeta, bastava apenas recuar um pouco a cadeira. E contemplavas o crepúsculo todas as vezes que desejavas...
- Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!
E um pouco mais tarde acrescentaste:
- Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol...
- Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?Mas o principezinho não respondeu

sábado, setembro 10

FORA DO TEMPO

São Paulo (apóstolo, ano 67 D.C.):
"Que as mulheres estejam caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar. Se querem ser instruídas sobre algum ponto, interroguem em casa os seus maridos."

Tertuliano (teólogo cartaginês, século III):
"Mulher, tu és a porta do inferno, foste tu a primeira a violar a lei divina, a corromper aquele que o diabo não ousava atacar de frente; tu foste, na verdade, a causa da morte de Jesus Cristo."

quinta-feira, setembro 8

PRESIDENCIAIS

O "Crónica do Planalto" apoia a candidatura de Francisco Louçã.

quarta-feira, setembro 7

MENSAGEM - Fernando Pessoa

OS TEMPOS II

ANTÓNIO VIEIRA

O céu 'strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei DE. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.

segunda-feira, setembro 5

ELE HÁ CADA LOUCO

Cientistas do Centro Evangélico para a Explicação Baseada na Fé, afirmam que a há muito aceite «teoria da gravidade« tem falhas e respondem a esta teoria com uma nova teoria da Queda Inteligente.

«As coisas não caem porque são actuadas por uma qualquer força gravitacional, mas porque uma inteligência superior, 'Deus' se quiserem, as puxa para baixo»

Afirmou Gabriel Burdett, graduado em Educação, Escrituras Aplicadas e Física da Universidade Oral Roberts.

domingo, setembro 4

O PEQUENO PRINCIPE (A. de Saint-Exupéry)

Capítulo V
Dia a dia eu ficava sabendo mais alguma coisa do planeta, da partida, da viagem. Mas isso devagarinho, ao acaso das reflexões. Foi assim que vim a conhecer, no terceiro dia, o drama dos baobás.
Dessa vez ainda, foi graças ao carneiro. Pois bruscamente o principezinho me interrogou, tomado de grave dúvida:
- É verdade que os carneiros comem arbustos?
- Sim. É verdade.
- Ah! Que bom!
Não compreendi logo porque era tão importante que os carneiros comessem arbustos. Mas o principezinho acrescentou:
- Por conseguinte eles comem também os baobás?
Fiz notar ao principezinho que os baobás não são arbustos, mas árvores grandes como igrejas. E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles não chegariam a dar cabo de um único baobá.
A ideia de um rebanho de elefantes fez rir ao principezinho:
- Seria preciso botar um por cima do outro...

Mas notou, em seguida, sabiamente:
- Os baobás, antes de crescer, são pequenos.
É fato! Mas por que desejas tu que os carneiros comam os baobás pequenos?
- Por que haveria de ser? Respondeu-me, como se se tratasse de uma evidência. E foi-me preciso um grande esforço de inteligência para compreender sozinho esse problema.
Com efeito, no planeta do principezinho havia, como em todos os outros planetas, ervas boas e más. Por conseguinte, sementes boas, de ervas boas; sementes más, de ervas más. Mas as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma cisme de despertar. Então ela espreguiça, e lança timidamente para o sol um inofensivo galhinho. Se é de roseira ou rabanete, podemos deixar que cresça à vontade. Mas quando se trata de uma planta ruim, é preciso arrancar logo, mal a tenhamos conhecido.
Ora, havia sementes terríveis no planeta do principezinho: as sementes de baobá... O solo do planeta estavam infestadas. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando.
"É uma questão de disciplina, me disse mais tarde o principezinho. Quando a gente acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta. É preciso que a gente se conforme em arrancar regularmente os baobás logo que se distingam das roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. É um trabalho sem graça, mas de fácil execução."
Em um dia aconselhou-me a tentar um belo desenho que fizesse essas coisas entrarem de uma vez na cabeça das crianças. "Se algum dia tiverem de viajar, explicou-me, poderá ser útil para elas. Às vezes não há inconveniente em deixar um trabalho para mais tarde. Mas, quando se trata de baobá, é sempre uma catástrofe. Conheci um planeta habitado por um preguiçoso. Havia deixado três arbustos..."
E, de acordo com as indicações do principezinho, desenhei o tal planeta.
Não gosto de tomar o tom de moralista. Mas o perigo dos baobás é tão pouco conhecido, e tão grandes os riscos daquele que se perdesse num asteróide, que, ao menos uma vez, faço excepção à minha reserva. E digo portanto: "Meninos! Cuidado com os baobás!" Foi para advertir meus amigos de um perigo que há tanto tempo os ameaçava, como a mim, sem que pudéssemos suspeitar, que tanto caprichei naquele desenho. A lição que eu dava valia a pena. Perguntarão, talvez: Por que não há nesse livro outros desenhos tão grandiosos como o desenho dos baobás? A resposta é simples: tentei, mas não consegui. Quando desenhei os baobás, estava inteiramente possuído pelo sentimento de urgência.

sábado, setembro 3

RESPEITO PELO PRÓXIMO?

Episcopado brasileiro exige condenação do aborto e da eutanásia no país
O desprezo que a Igreja manifesta por toda a opinião livre, revela-se com particular violência na América do Sul onde o tratamento reservado aos autóctones está a meio caminho entre o carinho que prodigalizava aos índios na doce tarefa da evangelização e os maus tratos piedosos aos hereges da Inquisição.
Na sequência da 43ª Assembleia Geral da Conferência Nacional de Bispos do Brasil, uma reunião de inveterados celibatários, todos do sexo masculino, gente que não sabe nada do que é a vida real a não ser pelos ecos do confessionário, a quem nada falta, tomaram, entre outras, as seguintes decisões:
1 - Pedir ao presidente Lula que «não sancione nenhuma lei que atente contra o direito à vida, por exemplo a aprovação de qualquer tipo de aborto», ou seja, nem em caso de violação, risco de vida para a mãe ou malformações congénitas;
2 - Condenar as iniciativas do Executivo brasileiro, como «a distribuição maciça de preservativos, além de produtos abortivos como o DIU e as assim chamadas pílulas do dia seguinte».
3 - Recordar a carta do Presidente Lula à CNBB em que se comprometia a «não tomar nenhuma iniciativa que contradiga os princípios cristãos», esperando que «tais propósitos sejam traduzidos em gestos concretos, inclusive quando isso exigir o exercício do seu poder de veto», quer quanto a projectos de lei, quer quanto à afectação de recursos financeiros.

Em suma, condicionar a sociedade civil, intrometer-se na política e impor os seus preceitos a todos os cidadãos independentemente de acreditarem ou não na virgindade de Maria e na castidade dos Srs. Bispos, é o objectivo da Igreja Brasileira.

quinta-feira, setembro 1

ESTOU DE VOLTA

Meus caros amigos:
O meu périplo terminou. Felizmente esta "frágil carcassa" não estava tão degradada como eu esperava.
Fui internado na terça-feira de manhã e depois dos habituais exames, tive alta na quarta.
Cheguei muito debilitado, mas tudo ficou minorado, ao ler as palavras de incentivo que fizeram o favor de me deixar.
BEM HAJAM

segunda-feira, agosto 29

O BARCO VAI DE SAÍDA…


Por motivos de “força maior”, vou ausentar-me durante uns dias…A saúde a isso obriga.
Espero estar de volta o mais tardar, no próximo sábado às minhas lides “bloguistas”.
Se, por acaso não voltar, façam o favor der ser felizes…

Os bons, vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m' espantar,
os maus, vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim,
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
anda o mundo concertado.

(Luís de Camões)

A BESTA QUE FALA

Era uma vez, no tempo em que os animais falavam

Após mais uma “Monumental Bebedeira”, o bastardo, para não dizer filho da puta, falou assim:

"Recuso-me a ser espanhol, tenho muita honra em ser português, e quero, daqui do Porto Santo, desta primeira terra das Descobertas, avisar Lisboa que se forem para alguma aventura ibérica, nós vamos seguir o nosso caminho, porque para isso já estamos preparados",

Muito vinho se consome naquela ilha.

domingo, agosto 28

O PEQUENO PRINCIPE (A. de Saint-Exupéry)

Capítulo IV
Eu aprendera, pois, uma segunda coisa, importantíssima: o seu planeta de origem era pouco maior que uma casa!Não era surpresa para mim. Sabia que além dos grandes planetas - Terra, Júpiter, Marte ou Vénus, aos quais se deram nome - há centenas e centenas de outros, por vezes tão pequenos que mal se vêem no telescópio. Quando o astrónomo descobre um deles, dá-lhe por nome um número. Chama-o, por exemplo: "asteróide 3251
Tenho sérias razões para supor que o planeta de onde vinha o príncipe era o asteróide B 612. Esse asteróide só foi visto uma vez ao telescópio, em 1909, por um astrónomo turco
Ele fizera na época uma grande demonstração da sua descoberta num Congresso Internacional de Astronomia. Mas ninguém lhe dera crédito, por causa das roupas que usava. As pessoas grandes são assim.
Felizmente para a reputação do asteróide B 612, um ditador turco obrigou o povo, sob pena de morte, a vestir-se à moda europeia. O astrónomo repetiu sua demonstração em 1920, numa elegante casaca. Então, dessa vez, todo o mundo se convenceu.
Se lhes dou esses detalhes sobre o asteróide B 612 e lhes confio o seu número, é por causa das pessoas grandes. As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que colecciona borboletas?" Mas perguntam: "Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?" Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado..." elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: "Vi uma casa de seiscentos contos". Então elas exclamam: "Que beleza!"
Assim, se a gente lhes disser: "A prova de que o principezinho existia é que ele era encantador, que ele ria, e que ele queria um carneiro. Quando alguém quer um carneiro, é porque existe" elas darão de ombros e nos chamarão de criança! Mas se dissermos: "O planeta de onde ele vinha é o asteróide B 612" ficarão inteiramente convencidas, e não amolarão com perguntas. Elas são assim mesmo. É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito indulgentes com as pessoas grandes.
Mas nós, nós que compreendemos a vida, nós não ligamos aos números! Gostaria de ter começado esta história à moda dos contos de fada. Teria gostado de dizer:
"Era uma vez um pequeno príncipe que habitava um planeta pouco maior que ele, e que tinha necessidade de um amigo..." Para aqueles que compreendem a vida, isto pareceria sem dúvida muito mais verdadeiro.
Porque eu não gosto que leiam meu livro levianamente. Dá-me tristeza narrar essas lembranças! Faz já seis anos que meu amigo se foi com seu carneiro. Se tento descrevê-lo aqui, é justamente porque não o quero esquecer. É triste esquecer um amigo. Nem todo o mundo tem amigo. E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes, que só se interessam por números. Foi por causa disso que comprei uma caixa de tintas e alguns lápis também. É duro pôr-se a desenhar na minha idade, quando nunca se fez outra tentativa além das jibóias fechadas e abertas dos longínquos seis anos! Experimentarei, é claro, fazer os retratos mais parecidos que puder. Mas não tenho muita esperança de conseguir. Um desenho parece passável; outro, já é inteiramente diverso. Engano-me também no tamanho. Ora o principezinho está muito grande, ora pequeno demais. Hesito também quanto à cor do seu traje. Vou arriscando então, aqui e ali. Enganar-me-ei provavelmente em detalhes dos mais importantes. Mas é preciso desculpar. Meu amigo nunca dava explicações. Julgava-me talvez semelhante a ele. Mas, infelizmente, não sei ver carneiro através de caixa. Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci.

sábado, agosto 27

VOZES DE BURRO(A)…

Mary Michael reza junto à catedral de Lincoln para evitar a rodagem da película «O Código Da Vinci».
Durante 12 horas, de joelhos, a freira pediu a «intervenção divina», às portas da catedral de Lincoln, sudoeste de Inglaterra, para impedir a realização do referido filme que tem como actor Tom Hanks.
A intervenção divina não chegou, a avaliar pelo ritmo da rodagem.
A freira entende que o filme é uma blasfémia e uma ofensa a Deus.Como em Inglaterra ainda são as leis que determinam o que se pode ou não fazer, sendo Deus irrelevante, a freira resignou-se e desabafou:
«O que interessa é o que Deus pensa. No dia do juízo final, quando me encontrar frente a frente com o Todo Poderoso, poderei dizer-lhe que pelo menos tentei [impedir o filme].»

El Periódico, de 18 de Agosto.

quinta-feira, agosto 25

“MALUQUINHOS EM FÁTIMA”

O líder da Fraternidade Pio X, um movimento ultra-conservador fundada por monsenhor Lefebvre, acusou ontem o Santuário de Fátima de praticar "sacrilégios" e "idolatria", ao promover encontros inter-religiosos com movimentos que não professam a mesma fé católica.

O bispo Bernard Fellay lançou duras críticas ao Santuário de Fátima, acusando-o de promover "sacrilégios" ao permitir "cerimónias na capelinha" com hindus e crentes de religiões não católicas.

Nos dias de hoje, "a cólera de Deus dirige-se contra o que foi feito em Fátima nos últimos anos", desde que o Santuário começou a promover encontros ecuménicos, assistiu-se à "erradicação da mensagem de Fátima", seguindo uma "lógica e uma coerência iniciada pela nova teologia de depois do Concílio Vaticano II”.

Acusou ainda Bernard Fellay. "A mensagem de Fátima, que procura a reparação dos pecados, foi esquecida" e a "culpa destes desvios da fé é de uma nova doutrina" que "ignora Deus", colocando-O "tão alto que nos é inacessível".

Ao promover contactos com outras confissões religiosas, a Igreja actual comete "atentados contra a honra da Virgem Maria", seguindo ainda padrões de celebrações "demasiado adaptados às necessidades dos homens", disse o bispo.

Este movimento - cujo primeiro líder, Marcel Lefebvre, foi excomungado por João Paulo II - critica a Nova Missa, instituída pelo Concílio, e defende o regresso aos ritos em latim, como existia antes da década de 1960. Ao final da manhã, os quatro bispos do movimento consagraram a Rússia ao Sagrado Coração de Maria, seguindo um pedido da Irmã Lúcia e as indicações de Marcel Lefebvre.

Porque é que não internam esta gente?

quarta-feira, agosto 24

MENSAGEM - Fernando Pessoa

OS AVISOS I

O BANDARRA

Sonhava, anónimo e disperso,
O Império por Deus mesmo visto,
Confuso como o Universo
E plebeu como Jesus Cristo.

Não foi nem santo nem herói,
Mas Deus sagrou com Seu sinal
Este, cujo coração foi
Não português mas Portugal.

terça-feira, agosto 23

PALAVRAS DOS OUTROS

CIRCO ROMANO EM COLÓNIA
Em Colónia, na Alemanha, anda à solta o pastor alemão que um bando de cardeais, com a cumplicidade do Espírito Santo e do Opus Dei, fez ditador vitalício da única teocracia europeia.Cobre-o, até aos tornozelos, um alvo vestido, de fino tecido e delicado corte, que realça os sapatinhos vermelhos do animador do circo que levou a Colónia centenas de milhares de jovens para promoção dos interesses da Cúria Romana.

Pende-lhe do pescoço a trela que termina em refulgente cruz, riquíssimo adorno do traje feminino.A brancura do vestido, a condizer com o cabelo, destoa do modelo que o exibe.
Para este espectáculo, que não é cultural nem recomendável, foi pedido um patrocínio à presidência da Comissão Europeia.
Não sei se o precedente fica aberto, para que bandas musicais, circos ambulantes e companhias de teatro venham a conseguir apoio.
Bento XVI não tem o arrojo de João Paulo II. Sente-se mal como charlatão de feira. Prefere organizar as pantominas no ar condicionado do Vaticano. Não verga a coluna para oscular o chão, uma espécie de felação de quem julga que Deus está em toda a parte e a Terra é a braguilha da humanidade.
Cumpre os rituais do múnus com a alegria do boi que caminha para o açougue, qual Cristo da mitologia católica a caminho do gólgota.
O barulho encomendado aos jovens há-de azucrinar-lhe os ouvidos, as lambidelas da mão hão-de causar-lhe nojo, as missas que repete há mais de meio século cansam-no e mantém aquele impenetrável rosto enquanto distribui água benta, benzeduras e hóstias consagradas, ad majorem Dei gloriem.
Vai ser uma semana infernal para o vigário de Cristo, um odioso trabalho de campo para um homem de gabinete, repetir até à náusea gestos, palavras, esgares, até ao desfazer da feira, enquanto a boa imprensa entoa hossanas ao impostor que se diz agente do divino.

Carlos Esperança,

(Na cidade de Colónia esgotaram-se os stoks de preservativos)

segunda-feira, agosto 22

A INDUSTRIA DO FOGO

A evidência salta aos olhos: o país está a arder porque alguém quer que ele arda. Ou melhor, porque muita gente quer que ele arda. Há uma verdadeira indústria dos incêndios em Portugal. Há muita gente a beneficiar, directa ou indirectamente, da terra queimada.

Oficialmente, continua a correr a versão de que não há motivações económicas para a maioria dos incêndios. Oficialmente continua a ser dito que as ocorrências se devem a negligência ou ao simples prazer de ver o fogo.
A maioria dos incendiários, seriam pessoas mentalmente diminuídas.

Mas a tragédia não acontece por acaso. Vejamos:

Porque é que o combate aéreo aos incêndios em Portugal é TOTALMENTE concessionado a empresas privadas, ao contrário do que acontece noutros países europeus da orla mediterrânica?

Porque é que os testemunhos populares sobre o início de incêndios em várias frentes imediatamente após a passagem de aeronaves continuam sem investigação após tantos anos de ocorrências?

Porque é que o Estado tem 700 milhões de euros para comprar dois submarinos e não tem metade dessa verba para comprar uma dúzia de aviões Cannadair?

Porque é que há pilotos da Força Aérea formados para combater incêndios e que passam o Verão desocupados nos quartéis?

Porque é que as Forças Armadas encomendaram novos helicópteros sem estarem adaptados ao combate a incêndios? Pode o país dar-se a esse luxo?

domingo, agosto 21

O PEQUENO PRINCIPE (A. de Saint-Exupéry)

Capítulo 03
Levei muito tempo para compreender de onde viera. O principezinho, que me fazia milhares de perguntas, não parecia sequer escutar as minhas. Palavras pronunciadas ao acaso é que foram, pouco a pouco, revelando tudo. Assim, quando viu pela primeira vez meu avião (não vou desenhá-lo aqui, é muito complicado para mim), perguntou-me bruscamente:
- Que coisa é aquela?
- Não é uma coisa. Aquilo voa. É um avião. O meu avião.
Eu estava orgulhoso de lhe comunicar que eu voava. Então ele exclamou:
- Como? Tu caíste do céu?
- Sim, disse eu modestamente.
- Ah! como é engraçado...
E o principezinho deu uma bela risada, que me irritou profundamente. Gosto que levem a sério as minhas desgraças. Em seguida acrescentou:
- Então, tu também vens do céu! De que planeta és tu?
Vislumbrei um clarão no mistério da sua presença, e interroguei bruscamente:
- Tu vens então de outro planeta?
Mas ele não me respondeu. Balançava lentamente a cabeça considerando o avião:
-É verdade que, nisto aí, não podes ter vindo de longe...
Mergulhou então num pensamento que durou muito tempo. Depois, tirando do bolso o meu carneiro, ficou contemplando o seu tesouro.
Poderão imaginar que eu ficara intrigado com aquela semi confidência sobre "os outros planetas". Esforcei-me, então, por saber mais um pouco.
- De onde vens, meu bem? Onde é tua casa? Para onde queres levar meu carneiro?
Ficou meditando em silêncio, e respondeu depois:
- O bom é que a caixa que me deste poderá, de noite, servir de casa.
- Sem dúvida. E se tu fores bonzinho, darei também uma corda para amarrá-lo durante o dia. E uma estaca.
A proposta pareceu chocá-lo:
- Amarrar? Que idéia esquisita!
- Mas se tu não o amarras, ele vai-se embora e se perde...
E meu amigo deu uma nova risada:
- Mas onde queres que ele vá?
- Não sei... Por aí... Andando sempre para frente.
Então o principezinho observou, muito sério:
- Não faz mal, é tão pequeno onde moro!
E depois, talvez com um pouco de melancolia, acrescentou ainda:
- Quando a gente anda sempre para frente, não pode mesmo ir longe...

E depois, talvez com um pouco de melancolia, acrescentou ainda:
- Quando a gente anda sempre para frente, não pode mesmo ir longe...

sábado, agosto 20

VITÓRIA DO BENFICA

Comunicado de Miguel (na íntegra)
“Eu, Luís Miguel Brito Garcia Monteiro, entendi promover esta conferência de Imprensa, não para falar do meu futuro, porque sobre ele haverá muitas oportunidades para o fazer, mas para informar que chegou ao fim, por mútuo acordo o diferendo que me opunha ao Benfica.
A todos os Benfiquistas, as minhas desculpas públicas por esta situação.
Fui um atleta que sempre honrou e dignificou a camisola do Clube, que ajudei a ganhar o título de Campeão Nacional e ao qual devo grande parte do meu sucesso.
Espero que a incomparável massa associativa do Benfica me perdoe por um comportamento menos avisado.
A todos os colegas, dirigentes, treinadores e funcionários, o meu muito obrigado.
Reconheço que a estratégia por mim defendida e pelos meus representantes não foi a mais adequada e provavelmente menos ética, revelando-se, com pena minha, totalmente inadequada.
Reconheço ainda, que algumas pessoas, que julguei meus amigos, ou que julgava serem especialistas, se quiseram aproveitar de mim, na pura perspectiva de fazer fortuna à minha custa.
Reitero que estou arrependido pelo facto de ter envolvido o Benfica e os seus adeptos numa discussão pública, aproveitada de forma injusta, mas nunca foi esse o meu desejo, aproveitando para agradecer a todos, em especial ao senhor Luís Filipe Vieira, Presidente do Conselho de Administração, pelo apoio e pela contribuição para a resolução deste processo.
Não quero acabar esta declaração, sem referir que o meu futuro acabou por ser definido exclusivamente pelo Benfica, agradecendo ao Valência a confiança depositada na minha pessoa.
Finalmente, agradeço ao Sindicato dos Jogadores pela disponibilidade e confiança na resolução consensual do conflito e quero esclarecer que esta declaração é feita sem qualquer coacção ou constrangimento e destina-se exclusivamente a repor a verdade dos factos.
A todos, em particular aos benfiquistas o meu muito obrigado.”
------//------
À saída da conferência de imprensa disse que foi coagido a fazer este comunicado. Mas o que ficou provado, é que toda a razão estava do lado do Benfica.
Essas, “
algumas pessoas que se quiseram aproveitar de mim, na pura perspectiva de fazer fortuna à minha custa” são os chulos do futebol. Esse causídico do “Conselho Canino”, tem um “ódio doentio” pelo Benfica.
São estes “filhos da puta” que vivem à custa dos jogadores, que muitas vezes lhes arruínam as carreiras.

quinta-feira, agosto 18

NOVA CRUZADA

Benoît XVI invite à ne pas retirer les crucifix des lieux publics.
Le pape Benoît XVI a invité à rendre Dieu visible et à ne pas retirer les crucifix des lieux publics, le 15 août 2005, revenant ainsi sur une polémique apparue deux ans plus tôt en Italie. (...)

O Papa Bento XVI, retoma uma polémica de 2003 em que um juiz mandou retirar um crucifixo de uma escola pública em nome da “Laicidade de Estado”.

Para o ex-Santo Inquisidor, o crucifixo deve estar presente em todos os locais públicos e privados, nos caminhos e praças, como testemunho da presença divina.

O artigo só é omisso quanto à intenção de plantar crucifixos em países doutras religiões. O Papa quer a cruz em todos os lugares em vez dos símbolos do Estado democrático.

Este papa é obsoleto, mas muito perigoso. Os Livres-Pensadores têm de barrar-lhe o caminho, para não corrermos o risco de voltar a assistir ao Atear da Fogueiras.

quarta-feira, agosto 17

POBRE IRAQUE

Desde o já distante dia da Invasão, que Jorge Bush não pára de matar no Iraque.
Esta manhã, mais 47 mortos e 80 feridos.

MENSAGEM - Fernando Pessoa

O ENCOBERTO V

Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz Morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo.

Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
NA Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.

terça-feira, agosto 16

MEMÓRIA

16/08/04 - Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo
SENTENÇA PROFERIDA EM 1487 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO
"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou; sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos.
Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres".

"El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487 e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo".

DIA A DIA

(este poste devia ter sido editado ontem)
HISTÓRIA DE 15 DE AGOSTO

1543 - Em Paris, é fundada a ordem dos Jesuítas por Inácio de Loiola, com o objectivo de proteger o catolicismo contra a Reforma e de realizar trabalho missionário.
1947 - É proclamada a independência da Índia.
1948 - É proclamada a república da Coreia do Sul.
1965 - Tumultos raciais em Los Angeles causam 28 mortos e 676 feridos.
1969 - Início do Festival de Woodstock, nos EUA, que durante três dias teve a participação de quarenta grupos musicais, reunindo 400 000 pessoas.
1995 - Em São Tomé e Príncipe, golpe de estado efectuado por oficiais subalternos.
1995 - Inauguração das emissões da RTPi e da RDPi para a Guiné-Bissau.

HOJE NASCEU

1195 - Fernando de Bulhões, futuro Santo António de Lisboa.
1769 - Napoleão Bonaparte, imperador francês.
1771 - Walter Scott, escritor escocês.
1785 - Thomas De Quincey, escritor inglês.
1866 - Margarida Adelina Abranches, actriz portuguesa.
1875 - Samuel Coleridge Taylor, compositor inglês.
1886 - António Silva, actor português.
1888 - T. E. Lawrence, militar e escritor inglês.
1892 - Louis Victor de Broglie, físico francês.
1938 - Fiama Hasse Pais Brandão, escritora portuguesa.

HOJE MORREU

1057 - Macbeth, rei da Escócia.
1907 - Joseph Joachim, violinista e compositor húngaro.
1909 - Euclides da Cunha, escritor brasileiro.
1935 - Paul Signac, pintor francês.
1967 - René Magritte, pintor belga.
1995 - António Vilar, actor português

domingo, agosto 14

O PEQUENO PRINCIPE (A. de Saint-Exupéry)

Capítulo 02
Vivi portanto só, sem amigos com quem pudesse realmente conversar, até o dia, cerca de seis anos atrás, em que tive uma pane no deserto do Saara. Alguma coisa se quebrara no motor. E como não tinha comigo mecânico ou passageiro, preparei-me para empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte. Só dava para oito dias a água que eu tinha.
Na primeira noite adormeci pois sobre a areia, a milhas e milhas de qualquer terra habitada. Estava mais isolado que o náufrago numa tábua, perdido no meio do mar. Imaginem então a minha surpresa, quando, ao despertar do dia, uma vozinha estranha me acordou. Dizia:
- Por favor... desenha-me um carneiro!
- Hem!
- Desenha-me um carneiro...Pus-me de pé, como atingido por um raio. Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um pedacinho de gente inteiramente extraordinário, que me considerava com gravidade. Eis o melhor retrato que, mais tarde, consegui fazer dele
Meu desenho é, seguramente, muito menos sedutor que o modelo. Não tenho culpa. Fora desencorajado, aos seis anos, da minha carreira de pintor, e só aprendera a desenhar jibóias abertas e fechadas.
Olhava pois essa aparição com olhos redondos de espanto. Não esqueçam que eu me achava a mil milhas de qualquer terra habitada. Ora, o meu homenzinho não me parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de fome, de sede ou de medo. Não tinha absolutamente a aparência de uma criança perdida no deserto, a mil milhas da região habitada. Quando pude enfim articular palavra, perguntei-lhe:
- Mas ... que fazes aqui?
E ele repetiu-me então, brandamente, como uma coisa muito séria:
- Por favor... desenha-me um carneiro ...
Quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer. Por mais absurdo que aquilo me parecesse a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta. Mas lembrei-me, então, que eu havia estudado de preferência geografia, história, cálculo e gramática, e disse ao garoto (com um pouco de mau humor) que eu não sabia desenhar. Respondeu-me:
- Não tem importância. Desenha-me um carneiro.
Como jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz para ele um dos dois únicos desenhos que sabia. O da jibóia fechada. E fiquei estupefato de ouvir o garoto replicar:
- Não! Não! Eu não quero um elefante numa jibóia. A jibóia é perigosa e o elefante toma muito espaço. Tudo é pequeno onde eu moro. Preciso é dum carneiro. Desenha-me um carneiro.
Então eu desenhei.
Olhou atentamente, e disse:
- Não! Esse já está muito doente. Desenha outro.
Desenhei de novo
Meu amigo sorriu com indulgência:
- Bem vês que isto não é um carneiro. É um bode... Olha os chifres...
Fiz mais uma vez o desenho.
Mas ele foi recusado como os precedentes:
- Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito.
Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado.
E arrisquei:
- Esta é a caixa. O carneiro está dentro.
Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:
- Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro?
- Por quê?
- Porque é muito pequeno onde eu moro...
- Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada
Inclinou a cabeça sobre o desenho:
- Não é tão pequeno assim... Olha! Adormeceu...
E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe.